sábado, 9 de janeiro de 2010

O Homem no Seu Século

Os indivíduos eminentemente insignes dependem dos tempos. Nem todos tiveram o tempo que mereciam, e muitos, ainda que o tivessem, não o conseguiram aproveitar. Alguns seriam dignos de melhor século, pois nem tudo o que é bom triunfa sempre; as coisas têm a sua vez, e até as eminências dependem do uso; mas o sábio tem uma vantagem: é eterno, e, se este não é o seu século, muitos outros o serão.

Baltasar Gracián y Morales, em 'A Arte da Prudência'

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A Perfeita Liberdade de Espírito

Um espírito que toma consciência da discordância que sempre existe entre o que afirma e o que é verdadeiramente não pode mais desfazer-se de uma espécie de dúvida filosófica. Somos livres na medida em que conservamos um pensamento de fundo. Em todos os casos, a perfeita liberdade de espírito consiste em um ato pelo qual ele compreende a absoluta impossibilidade em que está de encontrar a certeza na experiência.

Jules Lagneau, em 'Curso Sobre o Juízo'

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Tempestade do Destino

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não pára de mudar de direção. Você muda de rumo, mas a tempestade de areia vai atrás de você. Você volta a mudar de direção, mas a tempestade persegue, seguindo no seu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Por quê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada que ver contigo. Esta tempestade é você. Algo que está dentro de você. Por isso, só lhe resta deixar levar, mergulhar na tempestade, fechando os olhos e tapando os ouvidos para não deixar entrar a areia e, passo a passo, atravessá-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol nem para a lua; a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direção ao céu. É uma tempestade de areia assim que deve imaginar.

(...) E não há maneira de escapar à violência da tempestade, a essa tempestade metafísica, simbólica. Não se iluda: por mais metafísica e simbólica que seja, rasgar-lhe-á a carne como mil navalhas de barba. O sangue de muita gente correrá, e o seu juntamente com ele. Um sangue vermelho, quente. Ficarás com as mãos cheias de sangue, do seu sangue e do sangue dos outros.
E quando a tempestade tiver passado, mal se lembrará de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terá a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não será a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido.

Haruki Murakami, em 'Kafka à Beira-Mar'

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A Saúde da Alma

A célebre forma de medicina moral (a de Aríston de Chios), a virtude é a saúde da alma, deveria ser pelo menos assim transformada para se tornar utilizável: A tua virtude é a saúde da tua alma. Porque em nós não existe qualquer saúde, e todas as experiências que se fizeram para dar este nome a qualquer coisa malograram-se miseravelmente. Importa que se conheça o seu objetivo, o seu horizonte, as suas forças, os seus impulsos, os seus erros e sobretudo o ideal e os fantasmas da sua alma para determinar o que significa a saúde, mesmo para o seu corpo. Existem, portanto, inúmeras saúdes do corpo; e quanto mais se permitir ao indivíduo, a quem não podemos comparar-nos, que levante a cabeça, mais se desaprenderá o dogma da igualdade dos homens, mais necessário será que os nossos médicos percam a noção de uma saúde normal, de uma dieta normal, de um curso normal da doença. Será só então que se poderá talvez refletir na saúde e na doença da alma e colocar a virtude particular de cada um nesta saúde, que corre muito o risco de ser num o contrário do que sucede com outro. Restará a grande questão de saber se podemos dispensar a doença, mesmo para desenvolver a nossa virtude, se, nomeadamente, a nossa sede de conhecer, e de nos conhecermos a nós próprios, não tem necessidade da nossa alma doente tanto como da nossa alma saudável, em resumo, se querer exclusivamente a nossa saúde não será um preconceito, uma covardia e talvez um resto de barbárie mais sutil e do espírito mais retrógado.

Friedrich Nietzsche, em 'A Gaia Ciência'

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Falácia das Convicções

O intelecto humano, quando assente numa convicção (ou por já bem aceite e acreditada ou porque o agrada), tudo arrasta para seu apoio e acordo. E ainda que em maior número, não observa a força das instâncias contrárias, despreza-as, ou, recorrendo a distinções, põe-nas de parte e rejeita, não sem grande e pernicioso prejuízo. Graças a isso, a autoridade daquelas primeiras afirmações permanece inviolada. E bem se houve aquele que, ante um quadro pendurado no templo, como ex-voto dos que se salvaram dos perigos de um naufrágio, instado a dizer se ainda se recusava a aí reconhecer a providência dos deuses, indagou por sua vez: “E onde estão pintados aqueles que, a despeito do seu voto, pereceram?” Essa é a base de praticamente toda a superstição, trate-se de astrologia, interpretação de sonhos, augúrios e que tais: encantados, os homens, com tal sorte de quimeras, marcam os eventos em que a predição se cumpre; quando falha o que é bem mais freqüente —, negligenciam-nos e passam adiante. Esse mal insinua-se de maneira muito mais sutil na filosofia e nas ciências. Nestas, o de início aceite tudo impregna e reduz o que segue. Até quando parece mais firme e aceitável. Mais ainda: mesmo não estando presentes essa complacência e falta de fundamento a que nos referimos, o intelecto humano tem o erro peculiar e perpétuo de mais se mover e excitar pelos eventos afirmativos que pelos negativos, quando deveria rigorosa e sistematicamente atentar para ambos. Vamos mais longe: na constituição de todo axioma verdadeiro, têm mais força as instâncias negativas.

Francis Bacon, em "Novum Organum - Livro I (XLVI)"